11 de agosto de 2014

O dom de línguas



Esse texto expressa a minha opinião sobre o dom de línguas, esse assunto não deveria ser central à fé cristã, e de fato não é, mas é preciso, assim eu penso, refletir de forma bíblica sobre esse assunto diante de tantas questões, dúvidas e problemas acerca do assunto.

O dom de línguas é parte vital de qualquer igreja carismática. Se não há línguas, não há poder. Se não há gritos e arrepios, Deus não está presente nesse culto. Pode parecer que essas afirmações não representam a opinião da maioria carismática, mas infelizmente representam sim. Você já deve ter ouvido falar: “Hoje o louvor foi ungido”, “O culto hoje foi poderoso” ou então: “O culto hoje não teve poder”, “O louvor foi quieto demais, deve ter alguém em pecado no ministério de louvor”. Coisas bizarras desse tipo, são ditas frequentemente.
Os carismáticos (assim vou chamar qualquer classe que defende a manifestações de dons, isso porque, infelizmente, não são só pentecostais, mas alguns reformados também que lutam por esse título) fazem uma conexão entre “barulho x poder”, “evidência de dons x poder”, e por aí vai.
No caso do dom de línguas, há inúmeros erros hermenêuticos e práticos no seio da maioria das igrejas carismáticas. Precisamos primeiro entender biblicamente o que é o dom de línguas, qual é seu propósito, quais são seus benefícios e qual a sua aplicabilidade. Não vou distribuir pontos, mas vou “linkar” todas essas questões ao mesmo tempo.

Vou começar pelo livro de Atos, no seu capítulo 2, aonde ocorre o derramamento do Espírito Santo e este, soberanamente, concede a cada um uma língua específica a ser falada.
Desde já, expresso aqui como pressuposto que língua é o mesmo que idioma (a palavra língua de Atos 2 no original grego, ocorre 50 vezes no NT e em todas elas significa idioma, dialeto ou língua estrangeira, ou de outro povo). Não existe língua celestial ou de anjos, veremos isso mais para a frente.
Posto isto, voltemos ao texto, onde este mesmo, já nos permite ter esse pressuposto, pois todos os que estavam em Jerusalém, ouviram das grandezas de Deus nas suas próprias línguas maternas (Atos 2.5-12). O mesmo episódio se repete em Atos 10.44-48, aonde também é possível a compreensão do que falavam em outras línguas, eles engradeciam a Deus (v. 46). Um fato curioso e para o choque de alguns, é que esses homens que receberam o dom do Espírito Santo, foram batizados nas águas depois disso. Isso reforça que antes do homem vir às águas, ou indo além, antes mesmo de se entregar à Cristo, o Espírito Santo já havia lhe soprado vida. O terceiro episódio no livro de Atos está no capítulo 19, aonde não temos uma narrativa com muitos detalhes, apenas diz que recebem o dom de línguas (v.6).
Concluímos, por hora, que o dom de línguas são idiomas conhecidos para quem os ouve, mas estranhos para quem os fala. E durante todo o livro de Atos, o dom se manifesta da mesma forma. E a posteriori, será de igual modo.

Indo para o texto de 1 Coríntios 14, temos as outras respostas. É nesse capítulo que Paulo fala de forma concentrada e objetiva sobre o dom de línguas e os problemas na igreja de Corinto.
Precisamos analisar o texto acuradamente, como disse Lucas, e obter o entendimento completo do dom de línguas.
Vou analisar toda a perícope quase de forma expositiva.

1 Coríntios 14:

v.1 - Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.
v.2 - Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios.
v.3 - Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.
v.4 - O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja.
v.5 - Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois quem profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação.

Me parece que nesses cinco primeiros versículos, Paulo faz uma introdução retórica do assunto. Ele parece repetir o que se falava lá na igreja de Corinto acerca do propósito do dom de línguas em comparação com o dom da profecia (leia-se, proclamar, ou mesmo pregar). Como se fosse: “vocês dizem por aí que quem fala em línguas, fala somente a Deus, mas quem profetiza fala aos homens, como se uma coisa fosse para a edificação própria e a outra para a edificação da congregação”. Mas Paulo confronta esse pensamento nos próximos versículos, logo, ele não pode estar confirmando esse pensamento, mas introduzindo o assunto com sua retórica afiada. Outro problema desse trecho é no v.2, aonde “falar mistérios” é entendido como línguas celestiais ou angelicais. Não! Paulo usou a palavra mistério pelo seu significado. Se entrar na nossa igreja um alemão e nos escutar falando, nossa língua será um mistério para ele, algo oculto, algo que ele não conhece. Mistério significa isso. Nada de língua celestial. “Fala mistérios” é o mesmo que “fala coisas que não se conhecem ou não podem ser entendidas”.

v.6 - Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?
v.7 - É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara?
v.8 - Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha?
v.9 - Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar.
v.10 - Há, sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo; nenhum deles, contudo, sem sentido.
v.11 - Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim.
v.12 - Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja.

Aqui Paulo “puxa o tapete” e derruba a interpretação de que nos primeiros versículos ele concorda com o que se falava por lá. Ele diz que não adianta falar em outros idiomas que não se conhecem e mais, faz uma comparação com instrumentos que devem ser não apenas tocados, mas tocados com as notas corretas para haver melodia. E o mesmo é com a língua (idioma), se não for compreensível, como alguém pode entender? Paulo diz que não adianta haver voz sem sentido e que não se deve ignorar o sentido da voz.  A edificação da igreja depende de haver significado no que se fala.

v.13 - Pelo que, o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar.
v.14 - Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera.
v.15 - Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente.
v.16 - E, se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois da tua ação de graças? Visto que não entende o que dizes;
v.17 - porque tu, de fato, dás bem as graças, mas o outro não é edificado.

Se há línguas, deve haver interpretação.
Um fato interessante é que Paulo diz que se a pessoa não sabe o que fala, sua mente fica infrutífera, ou seja, deve haver consciência e razão no que se faz. Algumas versões usa a palavra “inteligência” no lugar de mente. Paulo diz mais, nós oramos com o espírito mas também com nosso entendimento ou nossa inteligência, sabemos o que estamos fazendo; cantamos com o espírito mas também com nossa inteligência, sabemos o que estamos cantando e o significado (hoje em dia nem sempre isso é verdade, infelizmente); então, se prestamos culto com entendimento, porque não falamos em língua com entendimento? Como podemos considerar culto congregacional se falamos coisas que as outras pessoas não entendem para poderem concordar conosco?

v.18 - Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós.
v.19 - Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua.

Paulo, grande erudito, falava muitos idiomas, acredita-se, pelos relatos bíblicos que Paulo falava hebraico, aramaico (língua comercial da Judéia), siríaco, turco, grego e latim. Mas ele diz abrir mão disso tudo, para falar algo que seja inteligível à todos.

v.20 - Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos.
v.21 - Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor.
v.22 - De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que crêem.

Não sejam infantis com relação às coisas sérias! Vocês não lembram da profecia de Isaías?
Paulo explica a confusão de modo simples: as línguas são para os incrédulos e as profecias para os crentes. Simples! Quem fala em línguas, fala em Espírito na língua do estrangeiro incrédulo presente no local de culto para ser informado acerca de Deus, assim como foi nos relatos do livro de Atos, mas com a diferença de que, sendo na congregação, posteriormente ao advento inédito de Pentecostes, deve haver ordem e significado, pois todos precisam entender o que se fala.

v.23 - Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos?
v.24 - Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado;
v.25 - tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós.
v.26 - Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.

Se todo mundo falar russo no culto de domingo de uma igreja evangélica no Canadá como será?
Mas temos aqui outro conselho de Paulo. A profecia (pregação) serve como meio pelo qual o incrédulo que entrar no local seja exposto à verdade e seja por ela julgado. Antes que pense que me contradisse quando falei que a profecia (pregação) é para os crentes e agora digo o contrário, deve-se distinguir quando Paulo fala de sinal. É algo extraordinário. Deus não mudou sua forma de levar o Evangelho aos incrédulos, continua sendo pela profecia (pregação), mas Deus, soberanamente, extraordinariamente, nos tempos bíblicos, usou o sinal milagroso das línguas para cumprir sua profecia e trazer espanto à todos. E quando a igreja se congregar, tudo seja feito para a edificação de todos. Me parece que a edificação está intimamente ligada com o conhecimento e entendimento de tudo que se faz. Não se pode edificar nada sem conhecimento.

v.27 - No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete.
v.28 - Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus.

Aqui vem o primeiro golpe!
“No caso...” – Significa que não era algo que acontecia ou deveria acontecer todo culto.
Paulo dita as regras:

1 – Falem no máximo 3 pessoas.
2 – Um de cada vez.
3 – E que haja intérprete.

Senão... FIQUE CALADO!

Será que falando consigo mesmo é um nível de volume que o irmão da próxima fileira fica quase surdo diante dos berros? Ou o irmão do lado é capaz de ouvir o mínimo possível? Ou falar consigo mesmo é internalizar, falar em pensamento aonde só Deus pode ouvir?

v.29 - Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem.
v.30 - Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro.
v.31 - Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados.

Parecia que em Corinto, mais de um pregava ou trazia uma meditação nas Escrituras, e havia a ordenança paulina de haver julgamento, avaliação. Assim como os bereanos faziam e foram elogiados por isso. Hoje em dia julgar ou avaliar uma pregação no instante em que ela ocorre é quase um pecado sem perdão.
Tudo deve ser feito em seu tempo. Um de cada vez.

v.32 - Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas;
v.33 - porque Deus não é de confusão, e sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos,
v.34 - conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina.
v.35 - Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja.

O segundo golpe!
Vocês devem se controlar para não tornar o culto uma confusão! Infelizmente o que mais vejo hoje é confusão ao invés de culto do Deus de paz. Não vou comentar a questão da mulher pois considero rudimento da lei judaica.

v.36 - Porventura, a palavra de Deus se originou no meio de vós ou veio ela exclusivamente para vós outros?
v.37 - Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo.
v.38 - E, se alguém o ignorar, será ignorado. 

Vocês estão achando que são quem? Deus trouxe seu Evangelho através de vocês ou só para vocês?
Terceiro golpe! SE ALGUÉM SE CONSIDERA ALGUMA COISA, RECONHEÇA MINHAS INSTRUÇÕES COMO MANDAMENTO DE DEUS!
Paulo usa de sua autoridade e sela a questão em Corinto.

v.39 - Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar e não proibais o falar em outras línguas.
v.40 - Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.

Paulo encerra dizendo que as pessoas deveriam procurar o dom da pregação e não deveriam proibir o dom de línguas, mas, que fosse realizado segundo a ordem que ele deixou, para que o culto não seja indecente.

Depois de todas as claras instruções de Paulo, eu me asseguro em dizer que nenhum dos cultos indecentes desses do ‘reteté’ obedece à Palavra de Deus. É confusão do início ao fim. Sem ordem e sem entendimento.

Me parece não caber em nossos dias e nosso contexto a manifestação do dom de línguas. Pelo menos tentando ser bíblicos, chegamos a essa conclusão. Assim como cremos que o dom do apostolado morreu sob a pena de João em Patmos, e que a bíblia não deve continuar sendo escrita por nenhum outro "apóstolo", pois estes foram chamados para lançar os fundamentos do Evangelho, assim também devemos crer que o dom de línguas foi para aquela época.
Talvez você ache meu posicionamento radical. Sim, concordo que seja. Não há ordem específica e nem diretriz clara para que o dom de línguas deixe de existir em nosso tempo. Apenas é seguindo a ordem de Paulo e o significado real do dom que tomo essa postura. Não estou tentando diminuir nem limitar a Deus, apenas tentando retomar o conceito bíblico de o que é o dom e de como deve ocorrer, e nessa análise, é que se torna quase óbvio que assim como não existem mais apóstolos, assim como muitas curas de Jesus foram apenas para reivindicar a autoridade do Cristo, também o dom de línguas cessou em nossos tempos.

Essa é minha análise. Não estou defendendo como dogma. Se não tenho argumentos para dizer de forma dogmática que cessou, por outro lado, existem argumentos expressos na bíblia contra o que ocorre hoje em dia sob o título de línguas estranhas, dom de línguas, mistérios e todo o tipo de entendimento que se têm acerca disso.